A LITERATURA NO ENSINO MÉDIO: LEITURA E PRODUÇÕES POÉTICAS NA EJA
Qui, 19 de Novembro de 2009 23:43

  

Maria Martins da Silva Mágio.[1]

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RESUMO: Apresentaremos, neste artigo científico, uma discussão em torno do ensino da literatura, pois compreendemos que muitos professores ainda têm dificuldades para trabalhar com textos literários em sua prática de sala de aula. Portanto, objetivamos tratar de conceitos teóricos metodológicos que auxiliam na prática pedagógica dos professores de língua materna, incumbidos de ensinar a literatura; refletir sobre a leitura e produção poética em sala de aula. A metodologia por nós empregada é a qualitativa por nos permitir abarcar as funções individuais e sociais da leitura de textos literários. Assim, buscaremos sustentar nossa posição nas concepções teóricas de Lajolo (1993), PCNEM (2000), OCEM (2008), Martins (2006), entre outros.

 

PALAVRAS-CHAVE: leitura, literatura, ensino.

 

I – INTRODUÇÃO

As obras literárias nos convidam à liberdade da interpretação, pois propõem um discurso com muitos planos de leitura e nos colocam diante das ambiguidades e da linguagem da vida. Mas para poder seguir neste jogo, no qual cada geração lê as obras literárias de modo diverso, é preciso ser movido por um profundo respeito para com aquela que eu, alhures, chamei de intenção do texto (ECO, 2003, p. 12).

 

Trataremos, neste trabalho, do ensino da literatura desenvolvido no Centro de Educação de Jovens e Adultos “Professor Milton Marques Curvo”. Compreendemos que muitos pesquisadores buscam averiguar como ocorre o processo de ensino-aprendizagem, especialmente da leitura, mas não especificamente de textos literários utilizados na educação de jovens e adultos. Portanto, objetivamos tratar de conceitos teóricos metodológicos que auxiliam na prática pedagógica dos professores de língua materna incumbidos de ensinar a literatura; refletir sobre a leitura e produção poética em sala de aula. A metodologia utilizada é a da pesquisa qualitativa que nos permite abarcar as funções individuais e sociais da leitura de textos literários. Assim, buscaremos sustentar nossa posição nas concepções teóricas da interação social, com base em Lajolo (1993), PCNEM (2000), OCEM (2008), Martins (2006), entre outros.

 

II – O TEXTO LITERÁRIO E SUAS IMPLICAÇÕES PEDAGÓGICAS

 

A leitura de textos literários é importante por desenvolver nos alunos a ética e a estética, mas o ensino de literatura tem se transformado em, “privilegio de poucos, o que é um direito de todos: a saber, o acesso à leitura e à competência em escrita de textos” (ANTUNES, 2009, p. 186). Existem muitas razões que têm levado os professores de língua materna a se questionarem das dificuldades de se trabalhar com textos literários em sala de aula, a exemplo, muitos alunos dizem não ter tempo para fazer as leituras propostas pelos professores, especialmente os alunos do CEJA que são trabalhadores e já chegam cansados à escola. Além disso, vem competindo com outros meios de comunicação, como a internet que é um suporte que dinamiza o acesso e o aluno pode ler partes do texto rapidamente e passar para outros textos de interesse dele. Assim:

 

Em sala de aula, a literatura sofre um processo de escolarização, tornando-se alvo de discussões sobre como trabalhar o texto literário sem torná-lo pretexto para o ensino-aprendizagem de outras questões, como, por exemplo, algumas noções gramaticais (MARTINS. In: BUNZEN, 2006, p. 83).

 

Desse modo, o ensino com jovens e adultos exige do professor certa habilidade na “seleção” dos textos poéticos e suas diferentes interpretações poéticas. Se reportarmos ao ensino de língua materna, especificamente nos livros didáticos, o texto literário é tido como pretexto para o ensino da gramática (GERALDI, 1996). Trabalhar o texto literário com outra finalidade, que não seja a da apreciação, descontração, troca de impressões ou de compreensão de um contexto sócio-histórico, é uma forma de “matarmos” o sentido da literatura. Isso porque, quando oportunizamos aos alunos o contato com textos literários, estamos contribuindo para que ele vislumbre uma vida melhor, cheia de sonhos, de imaginação, de “delírios” em seus pensamentos, sentimentos na e para a vida. Assim, Martins diz que:

 

O desafio do professor é ajudar os alunos a elaborar ou rever suas interpretações iniciais, sem descartar totalmente suas primeiras leituras de um texto literário, desta maneira ajudará o aluno na construção-reconstrução de interpretações e não simplesmente apresentar leituras já prontas, ou com a interpretação do professor. Desta maneira, o processo ensino-aprendizagem de literatura se desenvolve na interação entre professor, alunos e texto literário.

 

Nesse sentido, o professor tem o papel de mediador, no contexto das práticas escolares, uma vez que “opera escolhas de narrativas, poesias, textos para teatro, entre outros de diferentes linguagens que dialogam com o texto literário” (OCEM, 2008, p. 72). É justamente a partir das escolhas e da interação com o aluno que se vislumbra uma prática respeitosa, em que se leva em consideração as preferências pessoais que torna o estudo da literatura mais significativo, visando à construção e à  reconstrução dos sentidos.

 

III – O TEXTO LITERÁRIO: A EXPERIÊNCIA VIVENCIADA NA PRÁTICA DE SALA DE AULA

 

Abordar a literatura, tendo em vista as noções de intertextualidade e interdisciplinaridade nos levou ao desafio de trabalhar com leituras de poemas, com letras de músicas, a partir dessas, com produções de paródias no ensino da EJA. Vivenciamos uma experiência desafiadora, mas ao mesmo tempo gratificante ao ver “nascer” poemas voltados para belezas naturais, para fatos cotidianos e também ao contexto sócio-histórico-cultural dos discentes.

Sabemos que o texto literário é plural, marcado pela inter-relação entre diversos códigos (temáticos, ideológicos, linguísticos, estilísticos etc.) e o aluno deveria compreender a interação entre literatura e outras áreas que se relacionam no momento da constituição do texto.

Acreditamos que, é imprescindível e necessário que o aluno compreenda a leitura como fenômeno cultural, histórico e social, instrumento político capaz de revelar as contradições e conflitos da realidade. É nessa integração entre o texto literário e a dimensão social que buscamos possibilitar a significação das leituras poéticas e também das produções literárias, neste caso de produções de paródias. Nosso objetivo foi inserir os alunos jovens e adultos no universo literário que se caracteriza artístico e polissêmico, por transgredir as convenções que envolvem o aluno/leitor num jogo de descobertas e redescobertas de sentidos. Nesse sentido, “há uma necessidade evidente de reavaliação das metodologias direcionadas ao ensino de literatura, visando à busca de alternativas didáticas de ensino-aprendizagem capazes de motivar os alunos à leitura por prazer” (MARTINS. In: BUNZEN, 2006, p. 87).

Dessa maneira, desenvolvemos com os alunos do CEJA: leituras de textos literários que compreendem o multisemiótico, presente na linguagem verbal e não-verbal de poemas e também de letras de músicas. Seguido das leituras desses textos, recomendamos que os alunos produzissem paródias, utilizando-se da linguagem literária e da expressividade que a literatura permite. Assim, selecionamos o poema mais parodiado na história brasileira a “Canção do exílio”, de Gonçalves Dias, que resultou em lindas paródias, a exemplo:

 

Saudades de minha Cáceres

 

Que saudade de minha Cáceres!

Onde eu posso descansar.

Os rios que tem aqui

Não são como os de lá.

 

Nosso céu tem mais estrelas

Nossos rios têm mais peixes

Nossos peixes têm mais sabores.

Que não encontro cá!

 

Ao pescar aqui sozinho, à noite.

Mais saudades sinto de lá

Minha Cáceres tem árvores

Tem tuiuiú e biguá.

 

Minha Cáceres tem o rio Paraguai,

Onde todos sentem prazer em pescar

Ao ficar aqui sozinho, à noite

Mais saudade eu sinto de lá!

Minha Cáceres tem a Praça Barão,

Onde todos podem passear.

 

Não permita Deus que eu morra!

Sem que eu volte para lá!

Sem que eu desfrute das pescarias

Que tem por lá!

Minha Cáceres tem muitas árvores!

Tem muitos peixes, tuiuiú e biguá.

(SANTOS, 2009 [Et al])[2]

 

Segundo o dicionário Aurélio, a paródia é: “uma ode que perverte o sentido de outra ode”. Ou seja, é um jogo intertextual, no qual o segundo texto apresenta uma interação oposta à do texto original. O Modernismo brasileiro (movimento que se inicia em 1922 com uma semana de eventos conhecida como Semana de Arte Moderna) tem como uma de suas características a paródia de textos escritos em outros momentos da literatura nacional, em particular o Romantismo. E o poema “Canção do exílio” foi o texto inspirador dos poetas modernistas. Assim, fundamentada na teoria e também nas leituras desses poemas parodiados é que se concretizou o nosso trabalho.

 

IV – CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Este trabalho procurou enfocar a questão do ensino através de textos literários. Portanto, acreditamos que, a paródia possibilita ao aluno dar um breve passeio no mundo fantástico e imaginário que as letras de músicas e poemas, como a “Canção do exílio”, nos proporcionam. Assim, a partir de uma proposta de trabalho de sala de aula, oportunizei aos alunos jovens e adultos do CEJA -“Prof. Milton Marques Curvo” adentrarem nas trilhas do conhecimento por intermédio de leituras poéticas. Dessa maneira, os alunos puderam se tornar autores de seus próprios textos, assumirem seu papel de co-produtor de um texto lido, a partir de sua leitura. Concluindo, as paródias são instrumentos que possibilitam aos leitores e escritores interagir com outros mundos, seja ele imaginário ou real. 

 

V – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRASIL/MEC/SEF. Parâmetros Curriculares Nacionais: ensino médio. Brasília: Ministério da Educação, 1999.

_____. Orientações Curriculares para o ensino médio: linguagens, códigos e suas tecnologias. Brasília: Ministério da Educação, 2008.

ECO, U. O texto, o prazer, o consumo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989.

MARTINS, Ivanda. A literatura no ensino médio: quais os desafios do professor? In: BUNZEN, C. e MENDONÇA, M. (0rgs.). Português no Ensino Médio e Formação do Professor. São Paulo: Parábola Editorial, 2006.

GERALDI, J. W. Portos de Passagem. 4ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

PETRONI, M. R (Org.). Gêneros do discurso, leitura e escrita: experiências de sala de aula.São Carlos: Pedro e João Editores/Cuiabá: EdUFMT, 2008.

FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. São Paulo, SP: Paz e Terra, 2002.

LUDKE, M.; ANDRÉ, M. Pesquisa em Educação: Abordagens Qualitativas. São Paulo: EPU, 1991.

__________

[1] Professora de língua materna, lotada no Centro de Educação de Jovens e Adultos “Professor Milton Marques Curvo”, em Cáceres-MT.

[2] Deusmar B. dos Santos, Ilza Ap. Silva Costa, Maria Lucia de Oliveira. Alunos da 1 Fase “C”, ensino médio  do “CEJA - Centro de Educação Jovens e Adultos “Prof. Milton Marques Curvo”.

 

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