O ato de alfabetizar: uma práxis constante numa perspectiva avaliativa
Qua, 03 de Novembro de 2010 15:55

Joeli Auxiliadora França Ramos ( Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. ) [1]

Elisangela da Silva França ( Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. ) [2]

 

O presente texto visa primeiramente a sistematização das leituras realizadas pelo grupo de estudos na Formação Continuada “Sala de Professor” na Escola Estadual Desembargador Gabriel Pinto de Arruda, no primeiro semestre de 2010. As discussões traziam a obra de Carlos Cagliari “Alfabetização sem Ba, Bé, Bi, Bó, Bu” como proposta a ser interpretada e avaliada, quando comparada à educação de épocas primordiais e contemporâneas, oferecida pelas instituições atuais. Convém ressaltar que o método da cartilha (ba – be – bi – bo – bu) continua a ser utilizado em inúmeras escolas do Brasil, todavia, apesar dos referenciais teóricos não nos compete afirmar qual será o melhor método para se alfabetizar.

Com o passar dos anos a alfabetização escolar tem se tornado alvo de controvérsias tanto teóricas como metodológicas, o que tem exigido que a escola e todos os profissionais que atuam com a classe de alfabetização tenham um posicionamento em relação às mesmas, o que certamente terá conseqüências para as práticas pedagógicas que irão adotar.

Assim, vivemos novos desafios voltados ao profissional educador, e em especial o alfabetizador. Não só no Brasil, mas toda a América Latina depara-se com o desafio de rever suas prioridades da educação com base nos marcos das novas dinâmicas de desenvolvimento científico, numa perspectiva regional e, sobretudo, internacional.

Há tempos, também, que no Brasil predomina a discussão acerca da eficácia dos métodos de alfabetização, dentre eles podemos citar o método silábico e o método fônico e dentre outros, que tem originado confrontos entre as diferentes metodologias utilizadas no processo de alfabetização, pois, sabe-se que as informações chegam a todo instante por meio das novas tecnologias, utilizadas como meio de comunicação. Então, afim de, prevenir as inevitáveis diferenças individuais na aprendizagem inicial da leitura e da escrita e os eventuais fracassos que os métodos em si não eram capazes de contornar, elegeu-se um conjunto de pré-requisitos para uma alfabetização bem sucedida, privilegiando-se principalmente uma maturidade dos aspectos perceptuais e motores aliados a um domínio da linguagem oral.

Compreende-se que a aquisição de conhecimentos é fundamental como possibilidade de desenvolvimento econômico, político e social, uma vez que, a prática educativa está relacionada a vários fatores. Porém há uma necessidade emergente de saber aproximar-se dos diversos conhecimentos de forma produtiva; pois é preciso “saber aprender”.

Até pouco tempo, buscava-se assegurar, com base em algumas abordagens, que este saber se desenvolvesse através de um universo de palavras que poderia ser significativa para o aluno no seu meio social e cultural. Mas de modo geral, sob o ponto de vista de Cagliari, tratava-se de uma visão comportamental da aprendizagem que era considerada de natureza cumulativa, baseada na cópia, na repetição e no reforço.

A grande ênfase era nas associações e na memorização das correspondências fonográficas, pois se desconhecia a importância da criança desenvolver a sua compreensão do funcionamento do sistema de escrita alfabética e de saber usá-lo desde o início em situações reais de comunicação. Somente o aluno que souber buscar a informação, selecioná-la e utilizá-la de forma criativa, consciente e crítica estará preparado para conquistar seu espaço no mundo atual.

O desafio que deve ser posto à escola, passa pela conscientização da verdadeira natureza da leitura e da escrita, sendo, portanto, condição necessária para que o aprendizado aconteça.

Os Parâmetros Curriculares Nacionais conceituam leitura como sendo um processo no qual o leitor realiza um trabalho totalmente ativo de construção, reconstrução e significação do texto a partir de seus objetivos, seus conhecimentos de mundo relacionados a determinado assunto, sobre os autores e suas obras, de todos os aspectos que envolvem a leitura e a língua. Essa definição, porém, esclarece que ler é apenas extrair informação da escrita, codificar e decodificar letra por letra, palavra por palavra, como os métodos das cartilhas vinham demonstrando de acordo com Cagliari.

Observa-se a preocupação com a situação da educação nos dias atuais, e a intenção de melhora. E o momento é de reflexão; pois quem são os educadores da atualidade; o que pensam esses profissionais; qual é a real condição de trabalho dos mesmos?

De um lado os paradigmas motivadores dos educadores de outras épocas são seriamente questionados; em especial os alfabetizadores. Por outro, a cada dia técnicas de ensino conhecidas e muito utilizadas são criticadas e consideradas antiquadas, como o método silábico, por exemplo, que vem sendo objeto de estudo de educadores que visam contribuir com o processo de escolarização.

A compreensão equivocada das linhas pedagógicas sucessivas umas às outras, em curto espaço de tempo, a pouca experimentação prévia, a falta de pressupostos teóricos consistentes que embasem as práticas e quase inexistente acompanhamento dos resultados da eficácia dessas novas tendências têm gerado graves conseqüências, pois, gestores e educadores vão aderindo às mudanças e redimensionando o ensino de acordo com as normas que vão surgindo.

Exemplificamos o trabalho no Ciclo de Formação Humana, em que acontece o “acompanhamento da aprendizagem”, onde educadores seguem o determinado “fluxo” (material que demonstra as habilidades e competências que devem ser alcançadas pelos educandos no decorrer de cada fase). É fato que todas as mudanças que ocorrem visam a melhoria do processo.

Diante desta realidade, voltamos nosso olhar para o professor alfabetizador, aquele que trabalha com os educandos da base, que se apresenta com toda sua realidade social, física, psicológica.

A vida do alfabetizador é uma constante reavaliação da ação prática, da teoria, do conhecimento e de valores. A cada situação somos desafiados a reforçar ou abandonar o que pensamos até o momento da opção por algum caminho a seguir ou postura a tomar.

Até mesmo quando tentamos nos manter nas nossas individualidades e até mesmo no nosso comodismo, resistindo a qualquer tipo de mudança, a vida nos traz; uma situação inusitada, nos obrigando a pelo menos pensar numa nova perspectiva de ação prática; pois, nosso compromisso bate à nossa porta e nos faz refletir e tomar decisões a respeito.

Por isso, torna-se indissociável do ensino a visão crítica do educador com relação a sua realidade. As avaliações referentes à prática devem ser constantes a fim de garantir o sucesso da educação atual. Para tal, precisamos aprimorar nossos conhecimentos, refletir nossa prática, rever nossos conceitos, e estar abertos a novas discussões.

A tão utilizada cartilha, exemplo do comodismo de muitos educadores, simplesmente ignora tal realidade lingüística da sociedade, pois, desde o começo o aluno vai seguir as lições da cartilha usando, uma fala espelhada no modelo apresentado pelo professor, quando deveria espelhar sua fala e identificá-la de acordo com a sociedade na qual cada indivíduo está inserido.

Para Cagliari (1998), os métodos usados na cartilha deixam de levar em conta, que a maior dificuldade que os alunos encontram, sobretudo aqueles que não são falantes da norma culta em uso na sociedade, é aprender que nem tudo que eles falam fora da escola está de acordo com a norma culta, pois para estes alunos falar “batata”, tem o mesmo valor de palavras como “drento” “bicicreta” “etc”, ou seja, não conseguem perceber que é aceitável o uso destas palavras quando utilizadas oralmente, porém, não há a mesma aceitação na linguagem escrita, uma vez que esta segue a norma culta da gramática da língua portuguesa.

A silabação é outro grande fator da cartilha. O livro traz o uso da silabação a todo instante, com isto as crianças passam a pensar que para ler é preciso silabar levando algumas pronúncias silabadas para a própria fala. “A cartilha é algo contraditório, tendo em vista que ensinam os alunos a silabarem e depois querem que eles leiam com fluência” (CAGLIARI, 1998, p.85).

Através do método da cartilha, ou seja, o método da silabação, a escola ignora a habilidade a percepção da fala que as crianças têm. Ignora o conhecimento já adquirido da própria fala, e aos poucos, induz os alunos a interpretarem os fenômenos fonéticos da fala tendo com modelo a forma escrita das palavras e não a realidade fonética, neste método a escrita tem alta estima e faz com que tudo, no processo de alfabetização gire em torno da escrita.

A maioria das crianças consegue memorizar letras, sílabas ligadas a determinadas palavras (E de elefante, M de macaco), porém como memorizar não significa realmente aprender, alguns alunos ficam estacionados nessa etapa da alfabetização, ou seja, memorizam letras e sílabas, mas não lêem; fazem cópias, mas não compreendem o que estão copiando. São apresentados nas cartilhas piores textos elaborados por razões pedagógicas, para gerar as unidades das lições com elementos já dominados. Para exemplificar, é só comparar o texto das cartilhas aos textos espontâneos das crianças, para perceber que os textos das cartilhas são sem sentido não se lida com elementos coesivos adequadamente, e muitas vezes, nem com a coerência discursiva, o que faz deles péssimos exemplos para os alunos. Esses exemplos são citados na referida obra de Cagliari.

A realidade é que o uso das cartilhas desconsidera aprendizagem espontânea não reconhece o caminho que toda criança percorre para construir a língua de sua comunidade, inicialmente desenhando “lendo” o mundo que a cerca,

A cartilha tende a confundir “as crianças, uma vez que passa a idéia de que a linguagem é uma ‘soma de tijolinhos’ representada pelas sílabas e unidades geradoras” Cagliari (1998, p. 82). Cabe ainda considerar que as práticas de alfabetização por muitos anos se restringiram apenas a decodificar palavras, para saber ler e escrever, mas isso não garantia uma autonomia na leitura e na escrita, uma vez que a criança não demonstrava segurança em escrever um texto sob orientação própria.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CAGLIARI, Luís Carlos. Alfabetizando sem o ba-be-bi-bo-bu. São Paulo: Scipione,1998.

BRASIL, PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS: Língua Portuguesa/Ministério da Educação Fundamental. 3 .ed.- Brasília

REGO, L.L.B. Repensando a Prática Pedagógica na Alfabetização. Isto se Aprende com o Ciclo Básico; Projeto Ipê curso II, Secretaria do Estado da Educação - coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas, São Paulo, 1986, (p. 44-55).

_____________________________

[1] Professora Especialista da Escola Estadual “Desembargador Gabriel Pinto de Arruda” e da Escola Municipal “Pequeno Sábio”.

[2] Professora Especialista da Escola Estadual “Desembargador Gabriel Pinto de Arruda" e Escola Municipal “Tancredo Neves”.

 

 

 

 

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