Avenida sete de setembro: história e imagem de cáceres
Sáb, 10 de Dezembro de 2011 23:02

Camily Akerley Hughes[1]

Edvonilso de Oliveira Cebalho[2]

 

RESUMO: O presente artigo tem por objetivo apresentar as transformações do espaço da Avenida Sete de Setembro em Cáceres- MT fazendo um recorte a partir da pavimentação na década 70 até o atual momento. A metodologia de pesquisa é a bibliográfica, de cunho qualitativo. O referencial teórico utilizado para nossas reflexões são os textos de Arruda (2002) Sibilia (2002) Santos (2005), entre outros. A reflexão pauta-se nos espaços urbanos ao longo de sua trajetória de construção e nas mudanças das paisagens ao logo dos anos o surgimento e desenvolvimento da avenida como um importante lugar para a mudança do comércio recorrendo a relatos de moradores e trabalhadores que transitam nesse importante espaço.

 

PALAVRAS CHAVE: Avenida Sete de Setembro., Transformação. Comércio.

 

1. Introdução

 

O presente artigo está desenvolvido em dois momentos. No primeiro, damos destaque ao surgimento e desenvolvimento da avenida como um espaço social e econômico da cidade. Nesse sentido, apresentaremos a constituição deste espaço desde as primeiras referências documentais até os estabelecimentos da avenida como parte integrante da zona comercial da cidade, além de importante elo entre as zonas leste-oeste da cidade. Como isso, procuramos estabelecer um paralelo entre um lugar de referência comercial e o próprio desenvolvimento da cidade. Uma importante referência para esta reflexão foi à dissertação de mestrado de Adson de Arruda[3] e  o livro de  Ana Fani Alessandri Carlos sobre O Espaço Urbano: Novos escritos sobre a cidade[4]. Os trabalhos supracitados têm como tema geral o estudo de cidades nos quais procuram percebê-las como espaços constituídos por seus usuários. Destacamos o texto de Arruda que trata especificamente de Cáceres no qual examina os discursos constituintes da cidade nas três primeiras décadas do século XX.

No segundo momento, abordamos sobre o comércio e os consumidores que transitam por esse espaço existente na avenida. A ideia foi perceber como essas empresas comerciais foram se estabelecendo pelo traçado da avenida, mas também investigar como estes “frequentadores” assíduos deste espaço imaginam o lugar.

É importante lembrar que a atual Avenida Sete de Setembro não adquiriu esta condição no período estudado, pois há muito esta tem sido um espaço de comercialização de produtos, sobretudo, dos pequenos produtores da região que se estabeleciam zonalmente na avenida para comercializar os seus produtos e atrair inclusive pessoas de outras localidades próximas para comprarem víveres e outras necessidades. Também procuramos incluir uma reflexão sobre os espaços construídos ao longo da avenida que destoam de sua funcionalidade comercial. Para realizarmos esta tarefa utilizamos a importante análise do capitalismo atual feita por Paula Sibília[5] no qual apresenta as mudanças que este sistema vem sofrendo a partir da introdução de novas tecnologias e como estas vem (re) configurando maneiras mais sofisticadas de consumo e, ao mesmo tempo, delineando novas formas de dominação.

 

2 - A Avenida Sete de Setembro em Cáceres: História e Imagem

Na cidade de Cáceres a Avenida Sete de Setembro aparece como um dos espaços físicos  mais antigos do município. Está localizada no centro da cidade sendo uma das principais ruas de acesso para atividades comerciais e serviços dos mais diferentes ramos e se destaca também como um dos lugares que ocorrem manifestações públicas e reivindicações da população devido a esta condição de região central. A avenida  é composta de quatro pistas tendo como suas principais ruas transversais: Padre Cassemiro, Da Tapagem e Getúlio Vargas.

Vale ressaltar que, a atual Avenida Sete de Setembro sofreu várias mudanças no decorrer da sua existência e, estudar tais mudanças, implica em fazer uma reflexão sobre a própria cidade. Tais mudanças mudaram de forma significativa a estética da cidade, uma vez que Cáceres começa então a ter na sua estrutura física aspectos e traços do que hoje se entende como cidade  moderna, sobretudo em relação ao comércio local organizado em Cáceres, o qual passa a contar com uma tecnologia e uma estética semelhante às suas congêneres das grandes cidades como portas de vidro, luzes de néon, placas luminosas e as máquinas de cartões de crédito e débito.

 

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Fonte: Mussseu Municipal de Cáceres, a Avenida na década de 1960.

Como consequência, estas imagens atingem em cheio o imaginário popular dos clientes em potencial destas lojas que se rendem a estes apelos sem quaisquer resistências. Soma-se a elas as fachadas dos novos prédios que são erguidos no espaço público da avenida. Passar por ela com sacolas de compras é um símbolo da sociedade de consumo dos dias atuais, cuja lógica gira em torno da satisfação pelo consumo.

A Avenida Sete de Setembro, com seu traçado retilíneo e espaçoso, se assemelha às demais ruas e avenidas da cidade. É importante ressaltar como desde a fundação da cidade de Cáceres,[6] na qual foram colocados todos os preceitos racionais de construção de cidades portuguesas da época. Ou seja, privilegiou-se sua forma retilínea com ruas principais e secundárias tendo como centro uma praça onde se localizaria o poder temporal e espiritual. Segundo Adson de Arruda:

Ao elegermos a cidade como objeto de estudo, nos aproximamos da historiografia especializada que afirma serem as cidades ‘espaços’ que ligam os indivíduos e os grupos e em suas práticas sociais. Esses ‘espaços’, por sua vez, não podem ser concebidos apenas a partir de conceitos urbanísticos ou políticos, mas como o lugar da pluralidade das diferenças sociais.[7]

O Sr. Miguel Senattore,[8] de 58 anos e morador há mais de 50 na cidade de Cáceres vivenciou esse processo de urbanização da cidade de Cáceres. Nos seus relatos é possível perceber a sua impressão sobre a transformação do espaço da avenida. Essa impressão que ele nos transmite é importante para a compreensão deste estudo, pois através da sua memória procuramos encontrar vestígios, sinais que nos apresente pistas para uma interpretação das transformações, ao longo dos tempos, da Avenida Sete de Setembro.

Segundo O Sr. Miguel Senattore, a avenida era constituída por uma única via onde funcionava uma escola com o nome de Instituto Santa Maria (Colégio dos Freis). No mesmo lugar funcionava também a Igreja Perpétuo Socorro, sendo um dos prédios mais antigos existentes na avenida.

 

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Fonte: Museu Municipal de Cáceres/MT.Igreja  do Perpetuo Socorro

 

As pistas laterais não existiam.  Havia somente um largo e os acessos aos pouquíssimos prédios que eram percorridos através de passagens de pontes e tijolos sobre as valas por onde escorriam as águas das chuvas ou uma pinguela que dava entrada ao “Colégio dos Freis” que lá funcionava na década de 1970.

Devido a pavimentação da avenida na década de 1970[9], houve um incremento no número de atividades comerciais ao longo do seu traçado. Segundo Miguel Senattore[10], os principais produtos comercializados na década de 1970 eram produtos vindos de atividades agrícolas e pecuárias dos sítios próximos da cidade. Eram comercializados produtos como arroz, feijão, carne, milho, galinhas entre outros.

A cidade de Cáceres com o passar dos anos virou um pólo comercial, oferecendo serviços para as regiões vizinhas.[11] Os moradores dos municípios desmembrados como Mirassol D´Oeste, São José dos Quatro Marcos, Rio Branco entre outros, recorrem à cidade de Cáceres para fazer suas compras e procurar recursos médicos, hospitalares e educacionais.  Porém, esta circulação de homens e mulheres, moradores dos municípios próximos à cidade de Cáceres já existia desde a época que as primeiras famílias chegaram para ocupar as terras do município, a partir da década de 1960[12].

Segundo o sr. Rosalvo Carneiro, "naquela época as compras eram feitas em sua grande maioria aqui mesmo no município de Cáceres. Tornando o fluxo comercial mais intenso e bem mais concorrido na década de 1960 que atualmente".                                            No período a que se refere o Sr. Rosalvo Carneiro, do lado direito da igreja Perpétuo Socorro e os salões utilizados pela escola, só existia a residência do pecuarista Nestor Silva, enquanto que do lado esquerdo existia apenas o Hospital São  Luis. Este último pode ser considerado como o prédio mais antigo da avenida e de grande importância para a mesma como um importante ponto de referência.

 

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Fonte Museu Municipal de Cáceres-MT:Hospital São Luis na década de 1970.

 

Conforme os relatos do sr Miguel Senattore[13], no ano de 1940, data da construção do prédio, onde atualmente é o Hospital São Luiz, havia uma ou duas casas de adobes e o único posto de gasolina da cidade pertencente ao senhor Jair de Oliveira Garcia, onde existia uma pequena casa, uma bomba de gasolina e quase sempre filas de cerca de dez a quinze tambores de aço, latas, aguardando o combustível que dificilmente chegava em Cáceres. O movimento de veículos apesar de ser a saída para a capital era quase nenhum, frequentemente via-se transitar carros de bois ou carros de burros com pessoas que traziam produtos tais como, arroz, feijão, milho, galinha, carne de boi, vindo da Morraria.

 

3  - O Comércio na Avenida

Os produtos vindos da região da Morraria eram importantes para a economia da cidade. Um dos exemplos que podemos destacar dessa relação é dos produtores de arroz que trocavam seus produtos por outros alimentos de sua necessidade. Na maioria das vezes, esses produtos eram trazidos de carroça, um dos principais meios de locomoção utilizados pelos comerciantes da época.

 

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Fonte Museu Municipal de Cáceres-MT

 

Nos relatos – dos Srs. Rosalvo Carneiro e Miguel Senattore – podemos perceber claramente a atualização da memória, pois para eles, nos últimos cinquenta ou quarenta anos atrás, a atividade comercial em Cáceres era bastante inferior em relação à atualidade. Sendo assim, precisamos relativizar estas informações e construir, como afirma Montenegro, um quadro histórico em que os relatos se apoiariam em outras fontes históricas.[14]

Nesse sentido, em primeiro lugar, podemos mencionar o cemitério São João Batista[15] construído pelo Major João Carlos Pereira Leite na segunda metade do século XIX, que era ligado ao centro mais antigo da cidade por um caminho que hoje é a Avenida Sete de Setembro. Cremos que o cemitério era a estrutura que se destacava no caminho que levava da cidade para a zona rural e, daí, para Cuiabá.

Em segundo, no ano de 1936, o governo estadual mandou construir o primeiro aeroporto da cidade. [16] Esta construção – onde hoje se localiza a cidade universitária – teve um papel importante como meio de transporte e de comunicação para a cidade. Em pleno regime militar, no ano de 1978, a pista do aeroporto foi asfaltada permitindo que aviões maiores pudessem pousar.

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Fonte Museu Municipal de Cáceres-MT:Aeroporto na década de 1970.

 

O período compreendido entre os anos de 1960 e 1980 teve um considerável aumento populacional com a vinda de migrantes das regiões sudeste e sul do país, facilitado, sobretudo, com a construção da ponte Marechal Rondon, sobre o rio Paraguai, na década de 1960.[17] Em 1977, um outro equipamento urbano foi inaugurado – o Terminal Rodoviário Nova Cáceres.[18]

 

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Fonte Museu Municipal de Cáceres-MT: Inauguração da Rodoviária”Nova Cáceres”

A construção da rodoviária na avenida que está próxima a ela adquiriu uma característica especial nos últimos anos. Os bares, os restaurantes e os hotéis que surgiram no seu entorno para atender aos viajantes que vêm à cidade par realizar negócios ou turismo ganharam, com o tempo, novos usos.

Face às mudanças elencadas, acima citadas, aqui nesse trabalho podemos destacar que, incrementa-se no centro de Cáceres o novo e atual visual, desta vez com tecnologia, planejamento, para a configuração da atual avenida, com pistas pavimentadas de asfalto que simbolizam o progresso. Progresso este marcada pela existência de uma zona comercial bastante dinâmica.

 

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Fonte: Arquivo Particular – Adilson Reis – Cáceres/MT.

O “novo espaço” agora com traços de modernidade simboliza, para a população de Cáceres, um importante local para as suas compras, pois o comércio da atual Avenida Sete de Setembro é constituído de farmácias, supermercado, posto de gasolina, lojas de móveis, lojas de roupas, entre outros ramos de atividades comerciais. Assim, a avenida basicamente tem todos os itens que o consumidor procura a ideia de comodidade e, sobretudo, ganhar tempo na hora de efetuaram suas compras, entre outros fatores contribuíram para o fortalecimento do comércio daquela região. Podemos visualizar um espaço de atividades que pode ser considerado um lugar onde circula grande fluxo de pessoas, em grande parte, devido a esses fatores aqui já mencionados.

 

4. Considerações Finais

Ao encerrar estas reflexões sobre a avenida Sete de Setembro na cidade o que mais nos chamou a atenção foi a heterogeneidade dos espaços que fazem parte de sua paisagem. Ela é movimento, animação, agitação de pessoas que em determinadas horas do dia passam freneticamente por suas calçadas, a atravessa de um lado para outro num ritmo frenético típico de uma cidade em que as regras do capital comandam as ações. Seus prédios onde abrigam o comércio dos mais variados ramos brilham com estes transeuntes diários.

Foi na tentativa de compreender a constituição deste(s) espaço(s) que propusemos fazer esta pesquisa sobre a Avenida Sete de Setembro. O primeiro aspecto que analisamos foram às principais transformações ao longo do tempo nesse espaço urbano buscando demarcar acontecimentos que consideramos significativos para as mudanças na sua estrutura física.

 

5. Referências Bibliográficas

ARRUDA, Adson de. Imprensa, vida e fronteira: A cidade de Cáceres nas primeiras décadas do século XX (1900-1930). Dissertação de Mestrado. Cuiabá, MT. UFMT. 2002.

CARLOS, Ana Fani Alessandri. O espaço urbano: Novos escritos sobre a cidade. 2ª ed. São Paulo: Contexto, 2004.

SANTOS, Marisol Melgar dos. O comércio e o consumidor: A criação do CDL na visão do consumidor da cidade de Cáceres-MT na década de 1980. Monografia de Conclusão de Curso. Cáceres, MT. UNEMAT. 2005.

SIBILIA, Paula. O homem pós-orgânico: corpo, subjetividade e tecnologias digitais. – Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002.

MONTENEGRO, Antonio Torres. História oral e Memória: A cultura popular revisitada. 3ª ed. São Paulo :Contexto,1994

 

FONTES

  1. Fontes Escritas.

Revista Cáceres Bicentenária (Edição Especial) Cuiabá Secretaria de Comunicação Social –MT, 1978.

Mendes, Natalino Ferreira. Efemérides Cacerenses. Vol I E II. Brasília: Gráfica do Senado, 1992.

Mendes, Natalino Ferreira. História de Cáceres, Cáceres: Carline & Camiato, 1998.

 

  1. Fontes Orais.

Antonio Miguel Sanattore

Entrevista  realizada em Novembro de 2011

Rosalvo Carneiro

Entrevista realizada em Novembro de 2011



[1] Acadêmica do Curso de História da Universidade do Estado de Mato Grosso - UNEMAT

[2] Acadêmico do Curso de História da Universidade do Estado de Mato Grosso - UNEMAT

[3] ARRUDA, Adson de. Imprensa, vida urbana e fronteira: A cidade de Cáceres  nas primeiras décadas do século xx (1900-1930).

[5] SIBILIA, Paula.O homem pós-orgânico:corpo, subjetividade e tecnologias digitais.2002

[6] A cidade de Cáceres foi fundada em 1778 pelo Capitão General Luiz Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres. Esta recebeu como primeira denominação Vila Maria do Paraguai em homenagem à rainha de Portugal, na época, D. Maria I.

[7] ARRUDA, Adson de. Imprensa, vida e fronteira: A cidade de Cáceres nas primeiras décadas do século XX (1900-1930). Dissertação de Mestrado. Cuiabá, MT. UFMT. 2002.  p. 05.

[8] Entrevista realizada em novembro de 2011 no Museu Municipal de Cáceres.

[9] Conforme Revista do Bicentenário da Cidade de Cáceres, a Avenida Sete de Setembro começou a ser asfaltada durante o governo do prefeito José Souto.

[10] Entrevista  realizada em novembro de 2011.

[11] SANTOS, Marisol Melgar dos. O comércio e consumidor: A criação do CDL na visão do consumidor da cidade de Cáceres-mt na década de 1980.p 12

[12] . Santos, Marisol Melgar dos, Op. Cit.p 14

[13] Entrevista realizada no mês de novembro de 2011.

[14] MONTENEGRO, Antonio Torres. História oral e Memória: A cultura popular revisitada. 3 ed. São Paulo :Contexto,1994.p 11

[15] Segundo Natalino Ferreira Mendes em seu livro efemérides cacerense relata que o cemitério São João Batista começou a ser construído no ano de 1860.p 126

[16] Começa nesta data a construção estação de passageiros do aeroporto municipal de Cáceres-MT:Segundo Natalino Ferreira Mendes: Efemérides Cacerense.Volume II.p 67

[17] A ponte marechal Rondon foi inaugurada no dia 20-01-1961: Segundo Natalino Ferreira Mendes: Efemérides Cacerense.Volume II.p 137

[18] No dia 31-03-1971. Inaugura-se a estação rodoviária em Cáceres.

 

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